A Gabi chegou no mundo no mesmo dia em que a minha filha se foi. O parto trouxe complicações que ela não conseguiu vencer. E eu recebi uma menina nos braços com o coração em pedaços.
Desde então, sou eu e ela.
A casa ganhou outro ritmo. Lancheira na mesa de manhã cedo, uniforme passado na noite anterior, chinelo arrastando no corredor quando ela acorda. De tardezinha ela chega da escola, larga a mochila na cadeira e vem me contar tudo o que aconteceu. Antes de dormir, pede pra eu ficar do lado. Eu fico.
Até que eu comecei a perceber que ela cansava rápido demais. Ficava pálida, sem apetite, sem vontade de brincar.
Levei ela pra ser avaliada. Me explicaram que o sangue dela tem uma alteração que precisa de tratamento.
Existe um procedimento indicado pra ela.
Minha aposentadoria cobre o básico. O procedimento está fora do que eu consigo pagar.
Mas eu sei fazer cobertor. Aprendi com a minha mãe. Faz mais de quarenta anos que essas mãos não param.
De dia eu cuido dela. De noite, quando ela dorme, eu sento e vou fazendo. Ponto por ponto, linha por linha. Cada cobertor leva dias entre cortar, costurar e arrematar.
Faço com linha grossa, em cores que combinam com qualquer casa. São cobertores de verdade — feitos pra esquentar e pra durar.
O que entra com cada cobertor eu vou guardando. Tudo vai pro tratamento que ela precisa.
Se você quiser conhecer, eles estão aqui nessa página. Cada um carrega o trabalho das minhas noites e o cuidado que a Gabi precisa.


